Boicote dos EUA a petróleo russo preocupa menos que possíveis sanções da Europa e respostas de Putin, avaliam gestoras

poços de petróleo em Talf, na Califórnia

A disparada nos preços do petróleo nesta terça-feira (8) é uma reação à fala do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que anunciou o embargo à compra do produto vindo da Rússia. Segundo especialistas ouvidos pelo InfoMoney, a medida traz apreensão sobre quais devem ser os próximos passos adotados pelo Ocidente para frear a investida russa contra a Ucrânia – mas não representa exatamente uma novidade, na leitura do mercado.

João Lorenzi, sócio e analista de investimentos na Encore Asset Management, afirma que os agentes financeiros já tinham precificado um avanço das sanções na alta do fim de semana e que agora “colocaram isso na conta”. Para o especialista, o pior cenário seria se a Rússia optasse por seguir na linha de autoimposição de mais sanções, como fez ao restringir a exportação de diversas matérias-primas.

“Isso deixa claro que o risco aumentou. Logo, deve aumentar o preço das coisas. Acho péssimo que ele siga fazendo essas autoimposições”, afirma o sócio da Encore.

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Para outros analistas, a preocupação maior está na Europa. “Se fosse uma restrição envolvendo a Europa continental, o problema seria maior. Assim como, se a China decidisse restringir, isso poderia ser explosivo para o mercado, porque é algo que ninguém está esperando”, observa Lucas Brunetti, analista de commodities na Garde Asset Management.

Segundo o analista, o anúncio de Biden em si representa mais a continuação das medidas restritivas anunciadas recentemente e não traz tantas medidas mais práticas. “Os Estados Unidos já vinham liberando reservas [de petróleo]. Não tivemos quase nada de novo”, afirma.

Ele argumenta que apenas 8% do petróleo utilizado nos Estados Unidos vem da Rússia. Logo, para Brunetti, a sanção não fará tanta diferença no mercado. Para além do anúncio em si, a preocupação maior de agentes financeiros é com o fato de que as restrições estão aumentando, e não é possível saber onde vão parar, diz.

Correção nos preços

Embora o cenário pareça bastante negativo no curto prazo, Brunetti, da Garde, não descarta totalmente uma correção nos preços do petróleo. “O mercado é expectativa. Se acontecer algo na outra ponta, uma conversa mais prática de paz ou de negociação, eu acho que poderia corrigir”, pondera.

Lorenzi, no entanto, faz uma ressalva: por mais que o mercado corrija os preços no curto prazo, talvez não seja suficiente para neutralizar a alta recente. Outro ponto levantando por ele é que, por mais que a guerra acabe em breve, algumas decisões que foram tomadas agora são difíceis de mudar rapidamente porque há uma forte pressão pública contra a guerra.

“Por exemplo, a Shell comprou recentemente petróleo russo mais barato e depois teve que pedir desculpas. Também não penso que depois de invadir, as autoridades voltariam atrás facilmente”, acrescenta o sócio da Encore.

Olho na alocação

Sem ver uma alteração de tendência clara no horizonte, o especialista da Garde afirma que os anúncios, por enquanto, não vão mudar a alocação da gestora. “Estamos numa tendência contínua de piora. Não vimos uma mudança nessa tendência. Se mudasse algo, poderíamos pensar em alterar uma posição”, conta.

Brunetti diz que a casa zerou recentemente uma posição vendida (que aposta na desvalorização do ativo) que detinha no ouro e que aumentou, de forma marginal, a posição comprada (que aposta na valorização do ativo) em petróleo. Além dessa, a gestora possui uma alocação que se beneficiaria da alta do cobre.

Já Lorenzi, da Encore, afirma que a reviravolta no cenário mundial fez com que a gestora reduzisse a exposição a papéis mais ligados ao aço e aumentasse a alocação em Vale (VALE3), por exemplo. Além disso, a casa acrescentou uma posição em PetroRio (PRIO3).

Ao comentar sobre as alterações recentes no portfólio, o sócio da Encore diz que a gestora tem priorizado ações de produtoras de commodities em detrimento de papéis que dependem de intermediários produtores de commodities.

Como exemplo, Lorenzi cita o caso da Braskem (BRKM5). Ele ressalta que a empresa compra nafta (derivada do petróleo) e gás, mas não produz tais materiais. Logo, a companhia pode não conseguir repassar toda a elevação do preço das commodities para o consumidor, o que pode ser prejudicial para ela em termos de margem.

“O foco maior agora está em empresas que estão presentes logo no começo da cadeia e que não quem depende de outra empresa para transformar alguma matéria-prima”, observa. Nesse caso, diz, ações da Vale (VALE3), PetroRio, 3R Petroleum (RRRP3), CBA (CBAV3) e Suzano (SUZB3) são papéis que podem se beneficiar.

Além delas, um dos destaques da alocação está nas ações da metalúrgica Tenaris. Lorenzi afirma que a companhia estrangeira pode se beneficiar do fato de que os Estados Unidos podem começar a ter que investir mais em petróleo doméstico, com a proibição das importações do óleo russo.

Entenda os anúncios

Em discurso hoje, Biden anunciou a proibição dos Estados Unidos às importações de petróleo e outras fontes de energia da Rússia. O presidente americano também falou que o País vai ajudar os parceiros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a diminuir a dependência da commodity russa.

“Entendemos que muitos parceiros e aliados não poderão se juntar a nós, já que os EUA produzem muito mais petróleo domesticamente que todos os países da Europa. Na verdade, somos um exportador líquido de energia, então tomamos essa decisão quando outros não podem e vamos trabalhar com os parceiros europeus para reduzir a dependência deles da energia russa”, salientou Biden.

O presidente americano informou ainda que a decisão de parar as importações do petróleo russo foi tomada pelos dois maiores partidos do país, em uníssono.

Para evitar que haja grande impacto no mercado de petróleo, o governo americano já se comprometeu a liberar mais de 90 milhões de barris da Reserva Estratégica de Petróleo em 2022, com uma venda emergencial de 30 milhões de barris anunciada na semana passada.

Com uma ação em conjunto, o Reino Unido também informou que eliminará gradualmente as importações de petróleo russo até o fim de 2022. Atualmente, o Reino Unido compra a maior parte do seu petróleo da Noruega e apenas 4% vem da Rússia.

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