Bom estado de alguns fósseis pode ser produto de mudanças climáticas

Por algumas vezes, você já reparou no bom estado de conservação de alguns fósseis? De acordo com um novo estudo, feito pela Universidade do Texas, isso pode ser um efeito de variações climáticas ocorridas há milhões e milhões de anos.

Segundo a pesquisa, o aumento rápido de temperatura há 183 milhões de anos criou condições ideais de fossilização de animais marinhos pré-históricos, chegando, em alguns casos, a preservar tecidos leves e outras partes mais delicadas – além, claro, dos ossos.

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A estudante de Geociências Sinjini Sinha, que descobriu que mudanças climáticas antigas tiveram um efeito positivo na conservação de fósseis
A estudante de Geociências Sinjini Sinha, que descobriu que mudanças climáticas antigas tiveram um efeito positivo na conservação de fósseis (Imagem: The University of Texas at Austin/Jackson School of Geosciences)

“Quando eu comecei o estudo, eu não tinha ideia de se eles [fósseis] seriam preservados da mesma forma ou de formas diferentes”, disse a autora primária Sinjini Sinha, estudante de graduação do Departamento de Geociências da universidade. “Eu estava curiosa quanto ao que levou à excepcional preservação”.

O estudo considerou descobertas como peixes com guelras e tecido ocular intactos, caranguejos com garras naturalmente detalhadas e até animais octopodiformes, como polvos e lulas. Apesar da pesquisa apontar habitats em regiões diferentes para esses fósseis, o seu grau de preservação era mais ou menos o mesmo, levando à conclusão de que o clima global da época pode ter atuado em sua conservação de forma similar.

O processo de fossilização não é tão simples quanto parece: muitas são as formas que podem levar a isso, mas essencialmente, esse processo é entendido como quando um animal ou planta morre e acaba soterrado por sedimentação – cinzas vulcânicas, lamas etc. – e seus tecidos comuns (músculos, pele) acabam se desfazendo com o tempo, deixando apenas os ossos.

Em essência, minerais se formam sobre tecidos biológicos durante esse processo.

A pesquisa usou um microscópio de elétrons para escanear elementos químicos presentes nesses minerais, em fósseis vindos de três locais distintos: a Formação Scharang (sul da Alemanha), a escavação em Strawberry Bank (sul da Inglaterra) e Ya Ha Tinda, no Canadá.

Em todos os espécimes, um elemento químico se destacou: fósforo.

O fóssil de um peixe antigo, com o tecido ocular preservado (ponto preto na imagem): presença de fósforo pode ter contribuído para a preservação exemplar do fóssil
O fóssil de um peixe antigo, com o tecido ocular preservado (ponto preto na imagem): presença de fósforo pode ter contribuído para a preservação exemplar do fóssil (Imagem: The University of Texas at Austin/Jackson School of Geosciences)

Esse é um elemento bastante comum em tecido ósseo, então não é estranho encontrá-lo em restos humanos antigos, dinossauros ou até mesmo peixes – este último, dentro do exemplo da pesquisa. Entretanto, a surpresa veio ao encontrar o fósforo em tecidos onde esse elemento é normalmente ausente, como carapaças de crustáceos e corpos de animais octopodiformes.

Foi aí que veio a suspeita de que era o ambiente que estava fornecendo fósforo de forma generalizada, atingindo mesmo os tecidos que não o tinham quando vivos. Entretanto, dentro de sedimentações marítimas, esse elemento não é muito fácil de achar, então Sinha e sua equipe suspeitam de que eventos climáticos extremos ocorridos dentro do período Jurássico podem ter contribuído para o depósito de fósforo em regiões litorâneas e marítimas.

Basicamente, eles especulam que o processo se deu pelo aumento da temperatura global causado por erupções vulcânicas (onde fósforo pode ser bem concentrado), o que causou chuvas que “lavavam” o fósforo das regiões montanhosas até o mar. De acordo com Javier Luque, pesquisador associado da Universidade de Harvard que não está envolvido com o novo estudo, a conclusão é importante pois sugere um benefício das mudanças climáticas em um efeito que se prolonga por eras.

“Talvez um dos grandes benefícios desse trabalho é o de que eventos globais do passado distante podem ter criado o contexto para uma excepcional preservação de depósitos marinhos ricos em fósseis ao redor do mundo, independente de suas localizações”, ele comentou.

O estudo foi publicado no Scientific Reports.

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