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Cientistas criam “armadilha sexual” para atrair vespas gigantes

Segundo um estudo de 2020, vespas gigantes naturais da Ásia podem causar cerca de US$ 100 milhões (R$ 507,36 milhões) em danos agrícolas nos EUA por ano, mas uma nova “armadilha sexual” desenvolvida por cientistas da Universidade da Califórnia-San Diego promete cuidar desse percalço.

Segundo os autores do estudo, o problema se dá pelo fato de que as abelhas americanas – presas da vespa gigante – não desenvolveram mecanismos naturais de defesa contra os insetos avantajados. E essa desvantagem acaba reduzindo o potencial de polinização feito pelas abelhas, consequentemente impactando a produção de plantas que dependem desse processo.

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Eis que entra o time de pesquisadores liderado por James Nieh, professor associado do Departamento de Ciências Biológicas da instituição. Nieh, junto de sua equipe, criou uma armadilha que utiliza feromônios sexuais das fêmeas da Vespa mandarinia, atraindo os machos e capturando, disse o próprio à CNN, “milhares deles em um único dia”.

O método de estudo foi relativamente simples: os machos da V. mandarinia são atraídos pelo feromônio sexual, então os pesquisadores criaram uma mistura com feromônios sintéticos que mais se aproxima do que eles gostam. Cada armadilha tinha uma mistura específica, e uma delas tinha uma versão sintética do feromônio sexual de uma vespa gigante rainha – todas elas também tinham um “boneco” em forma de vespa.

“As vespas voavam ao redor das armadilhas, mas nenhuma delas pousaria se não houvesse nada que lembrasse uma fêmea”, explicou Nieh.

Após colocar uma série de armadilhas em um terreno na província de Yunnan, na China, os especialistas observaram qual delas teria mais resultado. O feromônio mais parecido com o da vespa rainha – feito a partir da mistura dos ácidos hexanóico, octanóico e decanóico -, foi o que trouxe mais resultados, capturando até 16 vezes mais que as outras armadilhas.

A fim de garantir a captura, Nieh e sua equipe despejaram nas armadilhas uma substância parecida com a famosa “cola pega-rato”. A ideia é a de que as vespas pousem na armadilha, mas não consigam mais decolar, presas à substância pegajosa. O time preferiu simplificar a escolha de materiais a fim de facilitar que a armadilha fosse reproduzida nos EUA.

Apesar de ser eficaz, o método pode não ser ideal por diversos motivos. Segundo Allen Gibbs, professor do Departamento de Ciências da Vida na Universidade de Nevada-Las Vegas (não envolvido no estudo), as armadilhas só serviriam durante o outono, único período do ano onde as vespas gigantes asiáticas fazem o acasalamento.

E mesmo isso ainda seria questionável: “mesmo que os machos sejam facilmente atraídos pela armadilha, se ele já tiver cruzado com uma fêmea antes, ela fica livre para construir novas colônias”, explicou Gibbs.

Apesar das armadilhas efetivamente matarem as vespas gigantes capturadas, Nieh não vê isso como uma ação anti-ecológica. Ele explica que as vespas asiáticas não são naturais da América e, embora ninguém saiba exatamente como elas chegaram, há suspeita de que o processo tenha sido parecido com o que introduziu as abelhas africanizadas no Brasil, em 1956 – em outras palavras: a culpa pode ser nossa – uma pessoa pode ter viajado para outros países e trouxe exemplares vivos de volta.

As vespas gigantes são enormes – comparadas às abelhas, pelo menos – e fáceis de serem identificadas graças às suas costas com listras amarelas e pretas e um desenho que se assemelha muito aos olhos da máscara do Homem-Aranha. Desde 2020, apicultores vêm relatando que suas colmeias de criação estão aparecendo destroçadas, com diversos corpos de abelhas no chão, completamente decapitados – vespas gigantes matam-nas dessa forma, normalmente carregando o tronco da abelha assassinada para alimentar suas larvas e descartando a cabeça.

No Japão e China, as abelhas locais aprenderam a se defender – do jeito mais “história em quadrinhos” possível, aliás: quando uma vespa se aproxima da colmeia, uma literal “bola de abelhas” a envolve, matando a inimiga não por ferroadas, mas por temperatura – o calor dentro da bola aumenta tanto e tão rapidamente que o oxigênio acaba esgotado, e a vespa morre sufocada por dióxido de carbono (CO2).

Ah, e as vespas gigantes têm um ferrão tão grande que uma picada delas atravessa até mesmo trajes de proteção dos apicultores. Vítimas descrevem a dor como “ser atravessado com ferro quente”.

É um processo natural que escapou do controle graças à ação do homem. De acordo com Nieh, as vespas gigantes receberam o apelido de “assassinas”, mas ele não gosta desse rótulo: “elas são predadoras? Sim. Mas leões e tigres também o são, e nem por isso nós os chamamos de ‘gatos assassinos’”, ele disse.

O estudo completo com o teste das armadilhas foi publicado no jornal científico Current Biology, após revisão pelos pares.

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