Criptomoedas podem virar padrão para fazer negócios no mundo – e a culpa será do Ocidente

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*Por David Z. Morris

A impressionante expulsão da Rússia do sistema financeiro global vai moldar dramaticamente a maneira como as entidades globais de todo tipo movem dinheiro. Segundo um especialista em tesouraria corporativa, essa movimentação provavelmente vai incluir uma abertura para que grandes empresas usem criptomoedas para conseguir fazer negócios ao redor do mundo.

“Daqui para frente, você vai ver uma adoção [corporativa] maior”, afirmou Mitch Thomas, da FinLync, empresa de serviços de tesouraria corporativa. “Você vai ver mais conversas entre finanças corporativas e funcionários do tesouro.”

Com os riscos para moedas fiduciárias menores e o potencial do Ocidente de restringir acesso à economia com base no dólar, as empresas podem encarar as criptomoedas — não estatais, universalmente acessíveis e resistentes à censura de redes monetárias — como “um sistema de pagamento global”, afirmou Thomas.

Ele acredita que grandes empresas já estão conversando sobre isso internamente.

“Nós deveríamos procurar saber como cobrar e pagar em criptomoeda no futuro? Não só para situações como esta [com a guerra na Ucrânia], mas para países cujas empresas não querem fazer negócios bancários ou se expor a uma moeda muito arriscada do Oriente Médio, da África ou da América do Sul?”

Thomas é chefe de engenharia de soluções na FinLync, que oferece um método diferente do Swift para conectar empresas e bancos, além de serviços de gestão de tesouraria.

No entanto, ele ainda não vê uma adoção generalizada de criptomoedas ou outras ferramentas de pagamento digital, em parte porque o uso corporativo não teria alcançado saturação suficiente para criar uma rede eficiente.

“Poucas empresas examinaram a habilidade de estabelecer e confiar nas criptomoedas para as faturas da firma… Então, de uma perspectiva corporativa, não vejo isso sendo usado em larga escala.”

A adoção fragmentada de criptomoedas para negociações com países periféricos não é uma coisa boa. As restrições bancárias estabelecidas com o 11 de setembro, pensadas como “livres de riscos”, já levaram muitos bancos em regiões geopolíticas complicadas a perder acesso ao sistema financeiro global, com impactos sérios no cotidiano das pessoas.

Espera-se que essa movimentação rápida anti-Rússia ajude a salvar vidas ucranianas, mas, a longo prazo, muitos concordam com a previsão de fragmentação financeira de Thomas.

Inevitavelmente, isso deve colocar uma pressão no declínio da economia global. Lembre-se de Adam Smith: a divisão do trabalho e a especialização aumentam a produtividade, mas mercados retraídos e restritos interferem na capacidade de especialização. Essa estrangulação seria lenta e sutil, com os impactos se estendendo por décadas.

Em última análise, o cenário se alinha com outras tendências de “desglobalização”, como os esforços americanos (até agora retóricos) de realocar a produção de artigos médicos e outras indústrias-chaves da China. Com a hipereficiência frágil e a produção just in time, estamos voltando para um mundo de cadeias com pouca oferta, custos altos e lucros baixos.

As criptomoedas podem ser vistas de maneira similar. Como todo mundo que entende de blockchains sabe, elas geralmente são menos eficientes do que bancos tradicionais e de confiança.

Pelo menos nos pagamentos globais, as criptomoeda não são de fato uma esperança de progresso tecnológico – estão mais para um plano B de emergência, para quando a fragilidade humana enfraquecer a politicamente frágil rede bancária moderna.

*David Z. Morris é colunista-chefe do CoinDesk

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