Estimativas para o IPCA de 2022 estão cada vez mais incertas e tornam missão do BC mais difícil

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O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA) registrou alta de 1,01% em fevereiro, com surpresas advindas de itens voláteis e por isso mantivemos a nossa projeção em 6,70% para 2022, acima do limite superior (5,0%) da meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional e da mediana (5,65%), observada no Focus. Com isso, em 12 meses, o IPCA acumulou 10,54%.

Logo, alcançar a meta de inflação neste (3,5%) ou no próximo ano (3,25%) torna-se missão cada vez mais difícil para o Banco Central (BC), ainda mais se considerarmos o novo choque negativo de oferta decorrente do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, em adição aos choques advindos da Covid-19.

Esses choques já estão sendo sentidos no Brasil. A Petrobras (PETR3;PETR4) anunciou reajustes dos preços de combustíveis, surpreendendo o mercado em sua magnitude, o que disparou mais uma onda de revisões (para cima) das estimativas da inflação de 2022.

O Senado e a Câmara reagiram, aprovando Lei Complementar com medidas estruturais (unificação de alíquotas e mudança de incidência de ad-valorem para ad-rem) e conjunturais (zerou as alíquotas de PIS/Cofins sobre diesel e gás até o fim de 2022), as quais amenizarão o impacto do reajuste dos combustíveis sobre a inflação.

O tom hawkish (agressivo) na ata do Comitê de Política Monetária na primeira reunião deste ano, com poucos riscos de inflação “pra baixo” e muitos “pra cima”, sinaliza que o BC reconhece tarefa árdua para conduzir a inflação à meta e que reagirá à concretização dos riscos altistas.

Entendemos que, ao deixar claro que somente haverá redução da Selic ao longo do tempo se a política fiscal cooperar, essa sinalização é oportuna em um ano de eleição, no qual pela primeira vez, na história, não há discussão de quem será o próximo presidente do BC e qual será sua política monetária.

Contudo, as incertezas sobre o IPCA de 2022 persistem. De fato, ainda que consideremos um BC atuando corretamente e um Executivo cooperando em termos de política fiscal, em virtude dos choques externos, nosso cenário se mostra disperso, com projeções variando de 5,2% até 8,2% para o IPCA em 2022, embora continuemos atribuindo maior probabilidade para a realização de uma inflação de 6,7%, que é a projeção de nosso cenário básico neste ano.

O cenário de 5,2% se realiza caso a bandeira verde seja implantada em dezembro, o que gerará – 0,15 pontos de porcentagem (p.p.) sobre o cenário básico, o preço (Brent) do barril do petróleo se mantenha em U$ 110 (-0,4 p.p), o câmbio fique no patamar de 5,0 (U$//R$) até o final do ano (-0,7 p.p.) e o maior repasse de medidas de renúncias tributárias na ordem de R$ 40 bilhões (-0,2 p.p.) – R$ 20 bilhões de redução linear de IPI (para todos os bens, exceto cigarro) mais R$ 20 de renúncia de tributação sobre o Diesel e o GLP.

Por sua vez, no outro extremo, o cenário de um IPCA de 8,2% em 2022 se realiza se caso o câmbio fique no patamar de R$ 5,6 por dólar até o final do ano (+0,7 p.p.), postergação da normalização dos gargalos nas cadeias produtivas (+0,2 p.p.), o preço do barril do petróleo (Brent) se mantenha em U$ 130 (+0,4 p.p) e afete também os preços de alimentação no domicílio, com alta de 0,2 p.p acima das nossas projeções, atualmente em 7,6%.

É possível ainda mencionar a incerteza decorrente da maior potência da política monetária de um BC independente em um ambiente com menos subsídios creditícios e financeiros que no último ciclo de aumento da Selic (2015-2016), cujos efeitos somente serão sentidos plenamente a partir de maio. É provável que tenhamos um efeito sobre a atividade econômica maior que o esperado nos modelos.

Enfim, ao longo de 2022, além de histórico, dado ser a primeira vez que o presidente e o colegiado do BC possuirão estabilidade ao longo de uma alteração de mandato presidencial, o trabalho do BC será árduo e desafiador, visto as peculiaridades que cercam a economia brasileira. Daí, o extenso intervalo de prováveis realizações do IPCA. Ressalte-se também ser importante que o BC insista na comunicação sobre o impacto da política fiscal sobre a inflação, uma vez que vivemos em um País onde os princípios de responsabilidade fiscal ainda não foram plenamente internalizados.

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