Fábrica de pigmentos de 40 mil anos descoberta na China traz novas evidências sobre a cultura da época

Um estudo publicado nesta quarta-feira (2) na revista científica Nature, feito por uma equipe internacional de pesquisadores, traz informações inéditas sobre o estilo de vida de um grupo de pessoas que vivia na China há 40 mil anos.

Escavações feitas no sítio arqueológico de Xiamabei, na Bacia de Nihewan, norte do país, revelaram a presença de uma antiga fábrica de ‘ocre’, pigmento natural de argila, que lança uma nova luz sobre processos de inovação e diversificação cultural que ocorreram no leste da Ásia durante um período de miscigenação genética e tecnológica.

Até hoje, muito pouco se sabe sobre a vida e as adaptações culturais dos povos asiáticos primitivos dessa fase. Na busca de respostas, a Bacia de Nihewan, com uma riqueza de sítios arqueológicos que variam entre 2 milhões e 10 mil anos de existência, é uma das melhores oportunidades para entender a evolução do comportamento cultural na região.

Descoberta traz novas impressões sobre a inovação cultural e a expansão do Homo sapiens na China

Essas são as primeiras evidências conhecidas de processamento de ocre no leste da Ásia, principalmente em razão de um conjunto de ferramentas de pedra distintas semelhantes a lâminas diferente de tudo o que já foi visto por ali.

A análise dos achados oferece novas impressões importantes sobre a inovação cultural durante a expansão das populações Homo sapiens. “Xiamabei se diferencia de qualquer outro sítio arqueológico conhecido na China, pois possui um novo conjunto de características culturais em uma data inicial”, declarou Fa-Gang Wang, pesquisador do Instituto Provincial de Relíquias Culturais e Arqueologia de Hebei, um dos autores do novo estudo.

Restos de ocre e ferramentas esculpidas manualmente em pedras foram encontradas no sítio arqueológico de Xiamabei, indicando a existência de uma produtora de pigmentos no loca. Crédito: Fa-Gang Wang, Francesco d’Errico / Wang et al. Nature. 2022

“A capacidade dos hominídeos de viver em latitudes do norte, com ambientes frios e altamente sazonais, provavelmente foi facilitada pela evolução da cultura na forma de adaptações econômicas, sociais e simbólicas”, disse Shixia Yang, membro da Academia Chinesa de Ciências e cientista do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, em Jena, na Alemanha. “Os achados em Xiamabei estão nos ajudando a entender essas adaptações e seu potencial papel na migração humana”.

E o amplo uso do ocre é uma das características culturais mais significativas encontradas em Xiamabei, como indicam os artefatos encontrados pelos pesquisadores, que eram usados para processar grandes quantidades do pigmento.

Entre os achados estão restos de dois tipos de ocres com diferentes composições minerais e uma laje de calcário comprida, com áreas lisas contendo borrões de ocre, tudo sobre uma superfície de sedimentos manchada de vermelho.

A análise feita por pesquisadores da Universidade de Bordeaux, liderada pelo professor Francesco d’Errico, indica que diferentes tipos de pigmentos eram processados no local, por meio de batidas e abrasões para produzir pós de diferentes cores e consistência. A produção de ocre em Xiamabei representa o exemplo mais antigo conhecido dessa prática no leste da Ásia.

Lâminas incrivelmente bem preservadas, com fibras vegetais usadas para ligação e polimento. Crédito: Andreu Ollé / Wang et al., Nature. 2022

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Mais da metade das ferramentas de pedra semelhantes a lâminas encontradas em Xiamabei, únicas para a região, medem menos de 20 milímetros. Análises funcionais e resíduos sugerem que as ferramentas eram usadas para perfuração, raspagem de couro, entalhe de instalações e até corte de animais, demonstrando um sistema técnico complexo de transformação de matérias-primas nunca vistas em locais mais antigos nem ligeiramente mais recentes.

Uma tecnologia lítica variada e a presença de algumas inovações (como o uso de ferramentas lapidadas em pedra e não feitas de ossos) podem refletir uma tentativa de colonização precoce dos humanos modernos. Esse período de colonização pode ter incluído intercâmbios genéticos e culturais com grupos arcaicos, como os denisovanos, antes de serem substituídos por ondas posteriores de Homo sapiens usando tecnologias de microlâminas.

Humanos modernos emergiram de trocas genéticas e sociais periódicas

Para os autores do artigo, o registro arqueológico não se encaixa com a ideia de inovação cultural contínua, ou de um conjunto totalmente formado de adaptações que permitiram que os primeiros humanos se expandissem para fora da África e do mundo. Em vez disso, os pesquisadores acreditam ser necessário esperar encontrar um mosaico de padrões de inovação, com a disseminação de técnicas anteriores, a persistência das tradições locais e a invenção local de novas práticas, todas ocorrendo em uma fase de transição.

“Nossas descobertas mostram que os cenários evolutivos atuais são muito simples”, diz o professor Michael Petraglia, do Instituto Max Planck. “E que os humanos modernos, e nossa cultura, emergiram através de episódios repetidos, mas diferentes, de trocas genéticas e sociais sobre grandes áreas geográficas, e não como uma única e rápida onda de dispersão em toda a Ásia”.

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