Gol (GOLL4) e Azul (AZUL4): Pandemia arrefece, mas aéreas têm petróleo como desafio ainda maior

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Na última terça-feira (8), a Azul (AZUL4) divulgou seus dados operacionais de fevereiro, que mostraram forte recuperação dos voos na base anual, com alta de 30%.

No mesmo dia, porém, uma nota da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (ABEAR), que representa tanto a companhia já mencionada como também a Gol (GOLL4), trouxe a informação de que se o preço do querosene para aviação (QAV) continuar subindo, suas associadas terão de cancelar algumas linhas aéreas.

Após dois anos difíceis por conta da pandemia da Covid-19, que fez pessoas ficarem trancadas em casa e países fecharem suas fronteiras, as companhias aéreas brasileiras têm agora, segundo a sua representante, um novo desafio: o avanço do preço do petróleo, que ameaça as operações de um o setor que acumula prejuízo de mais de R$ 37 bilhões desde 2016.

A guerra na Ucrânia trouxe novas sanções e embargos à Rússia, país que é o terceiro maior produtor de petróleo do mundo, e fez o preço da commodity disparar. Em dezembro, o barril Brent estava sendo negociado próximo aos US$ 70. Já no fim da manhã desta quinta-feira (10), o contrato com vencimento em maio operava na casa dos US$ 115 o barril.

Até mesmo antes disso, o mundo já enfrentava um problema de oferta dessa commodity. A recuperação econômica, com o arrefecimento da pandemia, trouxe maior demanda pelo “ouro negro” e boa parte dos produtores não estava dando conta de aumentar a oferta para acompanhar os pedidos, seja por falta de infraestrutura, seja por desinteresse – uma vez que o petróleo mais caro os beneficia.

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), por exemplo, até então não manteve o combinado com os Estados Unidos e com outros países consumidores da commodity de aumentar a produção em 400 mil barris por dia a cada mês, frustrando as expectativas (e jogando os preços pra cima).

Nesta ocasião, segundo a associação, que representa o interesse da Gol, da Azul e da Latam (além de outras companhias não listadas em bolsa), o preço do petróleo, matéria-prima na produção do querosene para aviação, pode se tornar um entrave para a manutenção de parte da operação já estremecida de suas associadas, uma vez que os combustíveis correspondem a cerca de um terço dos custos do setor.

“Diante desse cenário, a ABEAR informa que o consequente encarecimento do QAV nos curto e médio prazos poderá frear a retomada da operação aérea, o atendimento logístico a serviços essenciais e inviabilizar rotas com custos mais altos”, afirmou a associação em nota divulga ontem. “A ABEAR defende que medidas emergenciais de contenção de preços que possam ser tomadas durante a vigência do conflito incluam o QAV, amenizando dessa forma a crise do setor”, completou.

Para analistas, Azul e Gol estão em “momento conflitante”

O avanço do preço do petróleo pode trazer novos problemas para a Azul e para a Gol, justo quando o cenário começou a melhorar para as elas, com os números caminhando aos patamares pré-pandemia.

“Eu vejo que estamos em um momento conflitante. Temos dados do setor mostrando melhora, com o quarto trimestre da Azul, por exemplo, superando nossas expectativas. A companhia viu tanto a procura evoluir como também avançou em seus ajustes de oferta”, afirma Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos. “Estamos diante de fundamentos que são sólidos, com a procura voltando e as companhias sendo mais eficientes”.

Arbertman pontua, contudo, que com o problema da Ucrânia a parte de custos e de despesas operacionais do balanço das aéreas se deteriora. “Infelizmente, o cenário mudou e as ações da companhia estão pagando o preço”, diz.

Nos últimos cinco dias, as ações preferenciais da Azul acumularam queda de quase 16% e as da Gol recuaram mais de 12% – mesmo com as altas ocorridas na última quarta-feira, justamente com a baixa do petróleo. Na véspera, AZUL4 subiu 8,82% e GOLL4 avançou 12,09%, mas volta a cair nesta quinta em meio à nova alta da commodity. No final da manhã, os ativos da Azul tinham baixa de 3,79%, a R$ 20,07, enquanto os da Gol caíam 4,14%, a R$ 14,14, evidenciando a forte volatilidade recente das ações do setor.

Para o analista da Ativa, as duas hoje possuem posição sólida de caixa, tendo, durante a parte mais pesada da última crise, renegociado suas dívidas. Apesar disso, os últimos balanços ainda trazem os impactos da pandemia e, se a crise do petróleo realmente se instaurar, essas empresas, para ele, terão pouco espaço para errar.

“O espaço para mudanças agora está reduzido. Os balanços das aéreas ainda trazem reflexos da Covid-19. A liquidez está justa e as condições atuais mostram que, daqui para frente, elas precisam ser exitosas em sua manobras”, comenta o analista. “Isso faz com que as estratégias tenham de ser otimizadas. As companhias começam a pensar quais rotas são mais lucrativas, quais aeronaves são mais econômicas e por ai vai”.

Para Pedro Bruno, analista do setor de transportes da XP Investimentos, há ainda um descasamento das receitas com os custos, o que torna mais difícil a recuperação em curso – a despeito, segundo ele, do ótimo trabalho que tanto a Gol como a Azul apresentaram durante a pandemia.

“Nós enxergamos que com esse cenário de petróleo mais alto, com o câmbio não reagindo na mesma proporção, há o descasamento entre receita e custos. Essas companhias possuem receitas em reais e custos em dólares, com grande parcela sendo em combustível, além da dívida, que é dolarizada”, comenta Bruno.

Apesar de o dólar ter saído dos patamares de R$ 5,60 em dezembro, antes do boom do petróleo, para operar próximo de R$ 5 agora, recuando cerca de 9% frente a moeda brasileira, a queda não é suficiente para compensar a alta dos custos, uma vez que o preço do barril, no mesmo período, saltou quase 50%.

Alta do petróleo tende a diminuir procura por voos

Além do aumento dos custos e redução das margens, é esperado ainda que a inflação – e uma decorrente alta dos juros ainda maior – mingue a procura por voos. “Além do petróleo, o setor aéreo é também muito ligado ao poder de compra da população”, lembra Illan Arbetman. “As companhias estão repassando preços, a Azul já mostrou isso e acredito que a Gol também vai mostrar, mas há um limite realizar para esse movimento sem impactar a demanda”.

O encarecimento das passagens tende, então, a diminuir a procura por elas. “Os preços mais altos das das commodities tendem a pressionar basicamente todas as cadeias produtivas, incluindo a aviação em geral”, diz Guilherme Zanin, da Avenue Investimentos. “O preço do combustível fica mais caro e as empresas tendem a elevar preços, mesmo que isso signifique uma retração da demanda”, completa.

Por fim, Arbetman lembra que um disparo da inflação, e consequentemente dos juros, deve elevar os custos de companhias como a Gol e a Azul com os contratos de leasing – de arrendamento de aviões – que são atrelados aos juros.

Com tudo isso, uma série de casas de análise mudaram suas percepções para as companhias aéreas. A XP, de Pedro Bruno, por exemplo, reiterou postura cautelosa com as ações da Gol e da Azul.

A Seaport Global, por sua vez, tirou recomendação de compra dos dois papéis para colocar em uma posição neutra. Para esta casa de análise, as companhias aéreas têm de começar a planejar um possível choque do petróleo e podem vir a cortar algo entre 10% a 15%% da oferta ao longo de 2022 se o cenário não melhorar.

Companhias brasileiras ainda têm pouca exposição a voos internacionais

Entre um “lado positivo”, é possível mencionar que a Gol e a Azul podem ser menos impactadas pela guerra do que os seus pares internacionais.

“Os impactos do embate militar já são sentidos por empresas de turismo. A American Airlines, por exemplo, estava se recuperando, crescendo, e agora já declarou que reparou em uma diminuição do número de viagens para a Europa”, explica Zanin. “Outro grande exemplo foram as ações da Carnival Cruise, que também caiu com as tensões militares. O medo faz algumas pessoas repensarem ou mudarem seus percursos”, completa.

Para Pedro Bruno, da XP, esse impacto na Azul e na Gol deve ser pequeno. “A parcela do negócio internacional do negócio dessas duas, que existia no pré-pandemia, não se recuperou, com a recuperação se dando no nível doméstico. Explicação para isso é o próprio nível de câmbio e ainda as restrições”, diz. “A queda do turismo não traz impacto para as duas, diferentemente de para companhias internacionais”.

Em dezembro, por exemplo, a primeira empresa ofertou 64 milhões, ante 597 milhões no mesmo mês de 2019, antes da pandemia. A capacidade oferecida pela segunda, por sua vez, foi de foi de 363 milhões, ante 946 milhões dois anos antes.

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