Natura (NTCO3): resultado foi considerado forte, mas por que a ação desaba mais de 10%?

Loja da Natura

Como esperado, a empresa de cosméticos Natura (NTCO3) registrou números considerados positivos pelos analistas de mercado, praticamente quadruplicando o lucro líquido atribuído aos acionistas controladores, para R$ 695,4 milhões no quarto trimestre de 2021 (4T21).

Os dados foram impulsionados principalmente por novos ganhos com a integração da Avon, relacionados à otimização da estrutura corporativa.

Roberto de Oliveira Marques, CEO e presidente do conselho da Natura, afirmou em teleconferência de resultados que as sinergias com a Avon chegaram a próximo de 50% do plano previsto, além do esperado. As vendas totais da Avon em 2021 ficaram praticamente estáveis – a melhor tendência de receita em três anos.

Ele destacou ainda a disciplina de custos restrita, além de transformações contínuas na Avon, e a capacidade de sinergias com a sua expansão, permitindo melhorias da margem Ebitda (Ebitda sobre receita líquida) e lucro em 2021, apesar da alta dos preços das commodities, pressão de custos por conta da inflação e efeitos cambiais.

Para a XP, a rentabilidade foi o principal destaque, com as sinergias da Avon surpreendendo positivamente (já que era esperado que 40% das sinergias tivessem sido capturadas), e com a Avon Internacional apresentando uma margem Ebitda de 10,7% (versus cerca de 2% no terceiro trimestre de 2021 e de 3,4% no quarto trimestre de 2020), beneficiada por uma combinação de efeitos estruturais e pontuais.

Além disso, a simplificação da estrutura da América Latina com a integração da Avon, que ajudou a explicar a forte alta do lucro, deve continuar ao longo dos próximos trimestres.

Do lado operacional, os analistas da XP destacaram a estabilização da produtividade da Natura Brasil, enquanto a empresa observava sinais promissores do novo modelo comercial da Avon no Brasil (com a base se recuperando sequencialmente desde outubro) e no Equador.

Contudo, mesmo com os números considerados fortes, as ações registram forte queda pós resultado. Às 14h20 (horário de Brasília), os ativos caíam 11,72%, a R$ 21,16.

O que explica esse movimento? Primeiro, vale ressaltar que as ações estão sofrendo o fenômeno de “subiu no boato, caindo no fato”. Na véspera, os papéis saltaram impressionantes 16,25%, já antecipando um resultado positivo.

Isso em uma última sessão que também tinha sido bastante positiva para as ações de varejistas e para o Ibovespa em geral, principalmente por conta da expectativa de uma saída diplomática para a guerra entre Ucrânia e Rússia, que elevou o apetite ao risco e fez com que as ações consideradas descontadas tivessem fortes ganhos. Já nesta quinta-feira (10), o dia é de queda para o benchmark da Bolsa, com uma nova rodada de negociações entre os países não mostrando avanços, o que leva a uma baixa dos ativos em geral. As varejistas estão, no geral, em queda no índice brasileiro.

O Bradesco BBI, por sua vez, ainda que esteja positivo com os papéis e vendo os números do quarto trimestre também como uma surpresa positiva, destacou alguns pontos de atenção nos números da empresa.

As margens ficaram acima das estimativas, enquanto os dados de receita ficaram abaixo, com continuidade de uma tendência fraca para esta linha do balanço.

Olhando para alguns detalhes das divisões, apontam, as vendas da Natura Brasil caíram 6,4% (versus baixa de 16,5% no 3T21), mas isso ficou acima da expectativa do mercado e também veio um pouco melhor do que o mercado temia após o fraco terceiro trimestre de 2021.

A Avon Brasil continua sofrendo com a queda de consultoras (de 16% no comparativo anual), mas isso era amplamente esperado, Além disso, reforça o BBI, a administração sinalizou que as correções que foram implementadas após erros na implantação do novo modelo comercial estão começando a dar frutos. As vendas da The Body Shop (TBS) foram fracas com o desempenho sendo prejudicado pelo Covid (e a variante ômicron chegando pouco antes do Natal) e interrupção no fornecimento, enquanto o crescimento das vendas da Aesop continua forte, com crescimento de 20,8%.

Por outro lado, vale ressaltar que, no geral, a empresa observou 4,70 pontos percentuais de “contenção de custos e efeitos pontuais”, o que sugere que alguns desses custos provavelmente retornarão assim que as tendências de vendas se fortalecerem. Dessa forma, a qualidade da margem provavelmente será alvo de questionamento pelos investidores.

“De qualquer forma, o fato de a administração ter puxado várias alavancas para proteger as margens é um sinal positivo, após rentabilidade muito fraca no 3T21 e em um cenário de pressões de margens significativas. Quanto à recuperação da Avon, os números mostram uma situação ainda difícil no Brasil, com queda de 27% nas vendas (em linha com o estimado
pelo BBI). A Avon International continua fraca, com vendas em queda de 18% em relação a 2019. Já pelo lado positivo, a reestruturação de custos está se concretizando”, avaliam.

Os analistas mantêm a visão positiva sobre as ações porque, embora as tendências de receita de curto prazo sejam desafiadoras, acham que elas devem diminuir até o final de 2022.

Eles ainda veem uma tese de longo prazo atraente baseada em: 1) recuperação da Avon, 2) crescimento em novas regiões, 3) expansão de margem e, eventualmente, 4) múltiplos de avaliação mais altos. A recomendação do BBI é de compra e preço-alvo de R$ 55 ao final de 2022, ou uma alta de quase 130% ante o fechamento da véspera.

Cenário geopolítico podendo afetar operações

Já a Levante, mesmo também vendo os dados como positivos, destacou como pontos de atenção o cenário geopolítico, que adicionou novos desafios aos negócios da Natura, além das disrupções na cadeias de suprimentos, inflação crescente e dos níveis enfraquecidos de consumo no Brasil.

Em relação ao conflito entre Rússia e Ucrânia, a Natura informou que a The Body Shop e a Aesop estão suspendendo a entrega de produtos para seus franqueados na Rússia. A Avon também suspendeu as exportações da Rússia e está avaliando
embarques para outros mercados.

A companhia ainda ressaltou que o atual portfólio de fragrâncias da Avon produzido na fábrica russa é comum nos mercados da Europa Central e Ocidental e pode ser transferido para as instalações da companhia na Polônia. “É válido ressaltar que a Europa Central e Oriental representa uma região relevante para a Avon, na qual a Rússia é o maior mercado, bem como a Ucrânia também constitui um mercado importante para a companhia (segundo a companhia, 5% de sua receita e 3% do Ebitda vêm da Rússia e Ucrânia respectivamente)”, aponta a Levante.

Já em teleconferência, o CEO da Natura minimizou os impactos da medida, destacando que não são significativos. “O mundo deve se unir em torno de objetivos pacíficos”, destacou.

Marques, por outro lado, afirmou que a Natura espera um primeiro semestre desafiador por causa da incerteza criada pela invasão da Ucrânia e que a companhia está reduzindo gastos para enfrentar o cenário.

Também no radar da empresa, a diretoria da Natura avalia que a listagem da empresa na Bolsa de Nova York é a estratégia correta para um futuro próximo, mas taticamente este não é o momento certo. “Continuaremos a avaliar o momento mais adequado para fazer isso”, afirmou.

Planos no radar

Para este ano, a Natura pretende continuar a implementar o novo modelo comercial da Avon, avançar no crosselling e upseling da Avon e escalar a plataforma digital AvonOn. A companhia vai concentrar esforços em aumentar a rentabilidade do grupo com destaque para a marca Avon.

Na marca The Body Shop o projeto é continuar a implementação do novo conceito de lojas e estações de refil.

Já na Aesop, a Natura quer focar na América do Norte e na região Ásia-Pacífico, e se prepara para entrar no mercado chinês.
“Se tudo correr como projetamos esperamos um segundo semestre mais positivo, mas depende de como situação vai se desenrolar. Por isso não estamos alterando guidance, pois ainda vemos que os tempos são muito incertos e voláteis. Vamos controlar o que podemos, que são as medidas que já estamos tomando com relação aos gastos discricionários”, afirmou Guilherme Castellan, diretor financeiro da Natura.

A Levante lembra que companhia realizou aumentos de capital no ano passado, o que possibilitou uma melhora em sua estrutura de capital com a redução considerável de indicadores de endividamento como dívida líquida/Ebitda que a beirar as 5 vezes e agora se encontra inferior a 1,5 vez.

Conforme ressalta a casa de análise, com a melhora na estrutura de capital, a empresa pode continuar investindo na digitalização contínua de suas representantes de vendas, explorando as oportunidades de cross-selling com a Avon e em capturas de sinergias que são fundamentais para o crescimento das receitas da empresa e melhora da rentabilidade no longo prazo.

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