O que faz o preço do Bitcoin subir ou descer?

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*Por Robert Stevens

Alguns analistas alegam que o Bitcoin (BTC) é blindado contra choques que afetam as finanças globais. Dizem, por exemplo, que é um hedge contra a inflação e uma aposta segura contra ondas de incerteza. Já a imprensa diz que não é bem assim. Diversas notícias mostram que o BTC é afetado por choques de mercado externos, além de outras coisas que sequer encostam nos produtos financeiros tradicionais — como regulação e redes sociais.

Neste artigo, vamos fazer um resumo rápido dos principais catalisadores que fazem o preço do Bitcoin encolher ou disparar.

Eventos de mercado

Muitas vezes, as criptomoedas caem juntamente com os mercados globais. Em março de 2020, quando a pandemia do coronavírus sufocou os mercados tradicionais, o Bitcoin despencou também. Em meados de março, o BTC registrou queda de 57% em uma semana, alcançando uma mínima de US$ 3.867.

Em seguida, tal qual o mercado de ações, a moeda digital se recuperou e ficou mais forte do que nunca, chegando a picos históricos no ano seguinte. Segundo analistas, isso aconteceu por conta do excesso de tempo livre e renda disponível de alguns traders de varejo durante a pandemia, além da flutuação do mercado de ações.

O Bitcoin já reagiu a outros choques de mercado também. A criptomoeda caiu 6,9% no final de 2021, por exemplo, quando traders achavam que a gigante do mercado imobiliário chinês Evergrande estava prestes a colapsar. E de novo quando a também chinesa Didi anunciou planos para deixar a Bolsa de Valores de Nova York. De maneira geral, o BTC reage positivamente à inflação, subindo junto com os preços de bens de consumo e materiais.

É impossível listar todos os choques econômicos que afetam o Bitcoin, mas já existem evidências suficientes que sugerem que ele segue os mercados globais até certo ponto.

Uma pesquisa de 2020 sobre a volatilidade do BTC, publicada no Journal of Economic Dynamics and Control, descobriu que ela não é influenciada pela “maioria dos novos anúncios macroeconômicos dos Estados Unidos”, mas que a movimentação começa quando “indicadores prospectivos, como o índice de confiança do consumidor” são publicados.

O excesso sistêmico de alavancagem agrava esses choques e contribui para a volatilidade. A alavancagem acontece quando um trader pega capital emprestado de exchanges para turbinar investimentos potenciais. Em vez de fazer trading com US 1 mil do próprio dinheiro, por exemplo, algumas exchanges permitem que você pegue emprestado mais de 100 vezes do seu depósito inicial — ou seja, você pode negociar quase US$ 100 mil. Esse tipo de empréstimo, é claro, traz sérios riscos de liquidação.

Quando um grande número de traders altamente alavancados aposta no preço do Bitcoin indo em uma direção, aparece uma oportunidade para outros grandes investidores (chamados de “baleias”) moverem a criptomoeda na direção oposta. O movimento provoca uma série de liquidações, levando o BTC a despencar, criando perdas para traders comprados e alavancados. Então, as “baleias” conseguem comprar BTC a um preço muito mais baixo do que antes, às custas dessas perdas.

Por fim, acredite se quiser, mas os finais de semana também podem ter um impacto significativo na volatilidade do Bitcoin. Aos sábados e domingos, poucos traders ficam no computador monitorando os mercados, o que significa que há menos resistência quando os preços caem e pouca realização de lucro quando sobem. Muitas vezes, isso leva a flutuações consideráveis em ambas as direções.

Regulação

A regulação internacional tem um impacto sério no preço do Bitcoin, porque determina quais mercados podem ter acesso a ele, onde empresas podem se fixar e onde mineradores de BTC podem operar. Embora países como Reino Unido, Tailândia e Índia tenham influência direta no preço da criptomoeda, dois grandes mercados causam o maior impacto no Bitcoin: os Estados Unidos e a China.

O tombo do BTC, de quase US$ 65 mil em abril de 2021 para cerca de US$ 35 mil em meados de junho do mesmo ano, foi, em grande parte, uma resposta às sanções chinesas à mineração de Bitcoin. Em setembro de 2021, o BTC caiu 5,5% quando o governo da China deixou claro que criptomoedas são ilegais.

Já nos Estados Unidos, o Bitcoin reage a notícias de agências reguladoras e legislações. Em 2021, o Projeto de Lei de Infraestrutura Bipartidária do presidente Joe Biden afetou o preço da criptomoeda porque apresentou dificuldades para empresas de carteiras descentralizadas. Elas teriam que relatar dados de impostos sobre seus consumidores que, por natureza, elas não coletam.

Mas nem todo cenário é negativo para o Bitcoin. A criptomoeda também reage positivamente a boas notícias. Em outubro de 2021, a expectativa pela aprovação de um fundo negociado em bolsa para futuros de Bitcoin por parte da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC, na sigla em inglês) ajudou a elevar o preço da criptomoeda em US$ 3 mil.

Finanças tradicionais

Movimentações nas finanças tradicionais podem catapultar ou derreter o preço do Bitcoin, pois determinam a facilidade de epicentros financeiros, como Wall Street, de investir no ativo digital. Muitas vezes, há uma correlação entre a subida de preço do Bitcoin e movimentos que levam mais dinheiro de Wall Street para a criptomoeda — por exemplo, quando grandes bancos oferecem BTC a clientes.

Por outro lado, traders ficam com um pé atrás quando surge alguma notícia negativa do centro financeiro americano, como quando um grande banco faz duras críticas à moeda digital.

Além disso, o BTC costuma subir quando grandes empresas anunciam que compraram a criptomoeda como estratégia e tesouraria. O Bitcoin disparou depois que corporações como MicroStrategy e Tesla investiram nele. Por outro lado, a capitalização total de mercado das criptomoedas despencou de US$ 2,43 trilhões para US$ 2,03 trilhões em maio de 2021, quando Elon Musk, CEO da Tesla, afirmou que a empresa deixaria de receber Bitcoin como forma de pagamento, citando impactos ambientais.

Os produtos financeiros tradicionais também podem afetar o preço de mercado do BTC, especialmente os derivativos que acompanham o preço do Bitcoin. Como já foi discutido, o trading alavancado de futuros muitas vezes pode estimular mudanças excessivas no preço. Isso também acontece com outros produtos, como opções de criptomoedas. Resumidamente, essas opções dão aos investidores o direito, mas não a obrigação, de vender ou comprar o ativo subjacente (nesse caso, o Bitcoin) a um certo preço (conhecido como strike price, ou preço de exercício) em uma certa data ou antes dela.

Quando uma grande quantidade de opções não-rentáveis de Bitcoin está prestes a expirar ao mesmo tempo, a volatilidade do mercado do BTC pode ser afetada. Um contrato de opção é não-rentável quando o preço de exercício é maior do que o preço de mercado atual. Antes da data de expiração, grandes investidores, como os market makers (ou formadores de mercado), costumam cobrir o ativo subjacente para diminuir perdas maiores caso o preço do Bitcoin vá para a direção contrária.

Redes sociais

Quando CEOs de empresas de tecnologia são muito ativos nas redes sociais, a separação entre as finanças tradicionais e a influência dessas redes fica menos definida. Investidores de varejo parecem ser os mais sensíveis a comentários de grandes influenciadores sobre BTC. A criptomoeda disparou mais de 20% depois de Elon Musk mudar a bio do Twitter para “Bitcoin”, porque sinalizou para investidores de varejo que Musk poderia estar prestes a investir na criptomoeda. Um tempo depois, ele fez exatamente isso, através da Tesla. Essa influência de CEOs também acontece com outros ativos, particularmente com a Dogecoin (DOGE).

Alguns analistas também tentam observar redes sociais para projetar preços. Em um estudo de 2021, dois cientistas sul-coreanos concluíram que posts sobre o Bitcoin são mais frequentes quando os preços estão altos e vice-versa. Analistas indianos, em um estudo de 2019, concluíram que há uma correlação entre posts negativos e positivos e o preço do BTC.

*Robert Stevens é jornalista freelancer e seu trabalho já apareceu no The Guardian, Associated Press, New York Times e Decrypt.

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