Oito meses após regulamentação, Fiagros atraem investidores com retorno de até CDI mais 8% ao ano

Com a promessa de renda mensal e rentabilidade acima do CDI, os novos fundos ligados ao agronegócio – os Fiagros – vêm ganhando espaço na carteira de investidores que buscam retornos e diversificação de recursos. Desde que foi aprovada no meio do ano passado, a Lei 14.130, que dá isenção de imposto de renda (IR) para pessoa física nos ganhos obtidos nesta categoria de investimentos, gestores têm acelerado o lançamento de produtos carregados de papéis mais conservadores, em um primeiro momento, e planejando novos voos para 2022.

Levantamento feito pela Economatica a pedido do InfoMoney mostra quase 30 Fiagros sendo negociados na B3. Muitos já estão distribuindo dividendos mensais, oferecendo retornos na faixa de CDI mais 5% ao ano. Outros chegam a superar o CDI mais 8%, o que tem atraído novos aportes e levado à estruturação de fundos que devem acessar o mercado nos próximos meses.

As regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para os Fiagros permitem que eles sejam criados dentro de três modalidades: eles podem replicar a estrutura dos fundos imobiliários (FIIs), dos FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e dos FIPs (Fundo de Investimento em Participações). “A resolução 39 explica como o Fiagro pode ser constituído, mas ainda não há resolução própria da CVM para o produto. Hoje, os direcionamentos são baseados na estrutura dos FIIs, FIDCs e FIPs”, explica Luís Peyser, sócio do i2a Advogados.

Numa primeira leva, o que veio a mercado foram principalmente os Fiagros do tipo FII, carregados de papéis de dívida de empresas do setor agropecuários (CRAs, ou certificados de recebíveis do agronegócio), buscando atingir os investidores individuais. De olho no investidor qualificado, que possui mais de R$ 1 milhão em aplicações financeiras, há Fiagros-FIDC e Fiagros-FIP em desenvolvimento para serem negociados como uma espécie de evolução da categoria.

Para o investidor, isso significa poder aplicar em um dos setores que mais cresce no País, mas cujos ativos financeiros tinham alcance limitado antes do Fiagro. “O investidor hoje acessa o agro por meio de empresas de capital aberto e com a compra de debêntures. Mas as opções são muito concentradas, e o agro é repleto de empresas excelentes”, diz Pedro Freitas, sócio e responsável pelo setor de agronegócio no Investment Banking da XP. “Com o Fiagro, o investidor vai ter oportunidade de acessar o mercado de capitais direto e a empresas que muitas vezes não estão na Faria Lima”.

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A XP lançou o seu próprio Fiagro no final do ano passado, o XPCA11, que captou R$ 134,62 milhões, e coordenou à emissão dos Fiagros de outras cinco gestoras, como Riza, Valora, FG/A e Kijani, único que ainda não tem cota negociada na Bolsa.

A XP se prepara também para entrar em Fiagro-FIDC e Fiagro-FIP. “Vamos trazer a mercado essas novas modalidades”, diz Freitas. Por enquanto, o fundo da casa conta com 4,5 mil cotistas e investe em papéis atrelados a dois indexadores de remuneração: CDI e IPCA, com predominância do primeiro, que concentra 84,3% dos ativos. Isso permite remunerar o investidor com rendimentos médios de CDI mais 5% ao ano. O valor patrimonial da cota está próximo a R$ 10.

Retorno com dividendos acima de CDI mais 8%

Surpreendendo o mercado, a FG/A divulgou, na semana passada, o pagamento do que é considerado o mais alto dividendo de um Fiagro até agora. Em sua segunda distribuição mensal, o FGAA11 vai pagar R$ 0,14 por cota, o equivalente a um retorno de CDI mais 8,47% ao ano, acima do que a gestora estimava no roadshow e bem superior ao que outras gestoras estão entregando. As sinalizações iniciais apontavam para um retorno entre CDI mais 3,5% a 4% ao ano.

“Este resultado fortalece o Fiagro da FG/A frente aos outros fundos de crédito do mercado, pois representa um retorno de 18,7% anualizado”, observa Paulo Tarso Fleury de Lima, sócio e gestor do Fiagro da FG/A. O especialista compara o Fiagro a uma espécie de “primo mais novo” dos fundos imobiliários, mas salienta que, na economia real, o agronegócio tem uma força motriz muito maior que a do “primo mais velho”.

“Quando nasce o Fiagro, a chance de investir em um setor que tem prêmio alto, qualidade e crescimento é grande, mas precisa vir acompanhado de um time de gestores que conhece o setor”, afirma Fleury.

Com 2,7 mil investidores e captação inicial de R$ 91 milhões no FGAA11, a FG/A já programa novas emissões para chegar ao final deste ano com R$ 450 milhões e diversificar seus ativos para além do setor sucroenergético, no qual mantém sua atual exposição.

É hora de entrar?

Apesar da alta volatilidade do mercado em 2022, refletindo o ano eleitoral no Brasil e aprofundada pela eclosão da guerra na Ucrânia, especialistas defendem o que consideram os pontos positivos do Fiagro. Os fundos disponíveis estão bastante vinculados ao CDI, que já está em dois dígitos. “A inflação também continua alta, o que significa que a Selic deve seguir subindo. Mesmo com cota listada em Bolsa, elas estão vinculadas ao valor patrimonial e têm relatórios mensais transparentes. O Fiagro pode ser considerado um produto para aliviar a carteira e até para suavizar a volatilidade, assim como os FIIs”, considera Freury, da FG/A.

O Banco do Brasil, que tem 28% de sua carteira de crédito ligada ao campo e lançou seu primeiro fundo setorial do agro em fevereiro de 2021, fez uma captação de R$ 400 milhões em um Fiagro em novembro de 2021, para aproveitar a oferta de isenção de IR. A listagem na Bolsa saiu em 1º de fevereiro deste ano. “Ainda estamos estruturando a carteira, que já está investida em 11 emissores. A diversificação é para diminuir os riscos do produto. Tem empresas de proteína animal, cooperativa agrícola, logística. Queremos chegar a 20 emissores”, conta Isaac Marcovistz, head de produtos, comunicação e marketing da BB DTVM.

Dos R$ 400 milhões captados pelo BB, R$ 225 milhões já foram investidos. O restante deve ser alocado até o final de abril e tem na mira setores como o sucroalcooleiro e produtores de soja. O fundo busca entregar remuneração similar à dos títulos atrelados à inflação (NTN-B) de cinco anos (IPCA + 7% ao ano). A cota é negociada próxima a R$ 90, e o fundo já possui mais de 5,1 mil investidores. “A nossa ambição é entregar mensalmente os dividendos aos cotistas. O produto é adequado a isso, a geração de renda. Já começamos a distribuir dividendos em fevereiro e faremos novamente em março”, diz Marcovistz.

Já a Kinea, que fez a maior captação de recursos entre outubro de 2021 e janeiro deste ano, de R$ 525 milhões, está no terceiro mês de distribuição de dividendos e entregando CDI mais 4,5% ao ano. “Estamos concentrados nos CRAs imobiliários, que é quase uma continuidade do que fazemos. Financiamos empresas multissetoriais e hoje temos duas do setor sucroalcooleiro”, afirma Flávio Cagno, sócio responsável pelos fundos de recebíveis imobiliários e pelo Fiagro da Kinea.

“Pretendemos fazer novas emissões para diversificar em outros segmentos como café, grãos e logística do agro”, diz Cagno. A cota do KNCA11 está acima de R$ 106, o que mostra valorização frente ao valor de lançamento, que foi de R$ 100.

Principais riscos para o investidor

Apesar de neste momento os prêmios pagos pelos ativos do agronegócio serem altos, especialistas alertam que o investidor deve ficar atento à composição e diversificação de cada carteira e à qualidade das garantias apresentadas pelas empresas. O investimento pode financiar um produtor ou um ativo imobiliário. Se, por exemplo, houver aumento de preço de um insumo – como no caso dos fertilizantes importados da Ucrânia – pode haver impacto nos ativos financiados no fundo.

“Entender o risco de rentabilidade da empresa financiada, a qualidade do ativo que ele está financiando e se a garantia dada tem valor de liquidação, é essencial. Entender a perpetuidade da empresa ou do produtor. O CRA é o principal instrumento utilizado nos fundos. Alguns têm garantia, mas outros, não”, observa Flávio Cagno, da Kinea.

Para a FG/A, outro ponto importante é a especialização do gestor. “Muitas gestoras de crédito se interessaram pelo Fiagro, mas é importante ter time focado para navegar bem e fazer a diferença. Não dá para dar crédito sentado na Faria Lima, tem que ir até o canavial”, salienta Paulo Tarso Fleury, da FG/A.

O papel estar lastreado com boas garantias também é, na opinião da Valora, um dos pontos mais relevantes a se considerar – assim como a dinâmica de pagamentos de dividendos. “Além disso, quais as culturas associadas à empresa do agro, a dinâmica de liquidez, riscos a que está exposta e, claro, o conhecimento do gestor para analisar o perfil dos papéis para a escolha da carteira”, diz Guilherme Grahl , sócio responsável pela área de agro da Valora Investimentos.

A asset, que captou R$ 100 milhões no final de novembro no IPO do VGIA11, diz que para rentabilizar rapidamente o investidor é preciso ter velocidade na alocação dos ativos. “Os CRAs têm que estar disponíveis quando do IPO para alocação imediata do capital. Senão, o dinheiro fica queimando na mão”, explica Grahl. “Toda estratégia de alocação e velocidade são relevantes. Isso é o que explica alguns Fiagros estarem com rentabilidade negativa hoje. Estão demorando para alocar os recursos”.

O que não é o caso do VGIA11, cujo ganho beira CDI mais 4% ao ano desde a listagem do fundo, em dezembro de 2021, até 4 de março, conforme a Economatica. Mas é o que acontece com mais de seis Fiagro lançados recentemente. O preço da cota do fundo da Valora está hoje acima de R$ 10,16.

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