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Por que a Ucrânia desistiu de distribuir criptomoedas de graça para seus apoiadores?

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A Ucrânia recebeu cerca de US$ 50 milhões em doações com criptomoedas para financiar suas forças armadas. Como forma de agradecimento, na quarta-feira (2) o governo prometeu enviar alguns tokens gratuitos de presente para seus apoiadores, ação conhecida no mundo cripto como “airdrop”.

Cerca de 20 horas após o anúncio, no entanto, o vice-primeiro-ministro e ministro da transformação digital do país, Mykhailo Fedorov, informou em seu perfil no Twitter que a distribuição foi cancelada.

O comunicado deixou a comunidade cripto atônita, pois Fedorov não explicou o porquê da desistência. Em seu tuíte, ele disse apenas que a decisão foi tomada “após cuidadosa consideração”. Falou também que a nação não tem mais planos de emitir criptos fungíveis (que podem ser trocadas), mas em breve deve anunciar o lançamento de tokens não fungíveis (NFTs) para apoiar seus militares.

After careful consideration we decided to cancel airdrop. Every day there are more and more people willing to help Ukraine to fight back the agression. Instead, we will announce NFTs to support Ukrainian Armed Forces soon. We DO NOT HAVE any plans to issue any fungible tokens

— Mykhailo Fedorov (@FedorovMykhailo) March 3, 2022

Spoofing

Fedorov não deu detalhes, mas o cancelamento pode ter sido motivado por um “spoofing” (falsificação, em inglês), um tipo de golpe cibernético em que alguém ou um grupo finge ser outra pessoa, empresa ou projeto para conseguir dados ou se aproveitar dos usuários. É uma fraude muito comum em e-mails e sites, e que acabou ganhando espaço no mercado cripto.

No caso da Ucrânia, a ação funcionou da seguinte forma:

Na quarta, por volta das 19h15 (horário de Brasília), poucas horas depois que o governo anunciou o airdrop, uma pessoa criou tokens chamados “Peaceful World” (WORLD) e enviou 7 bilhões de unidades para a carteira de criptos do país, segundo o explorador Etherscam. Na sequência, conforme reportou o CoinDesk, a wallet do governo aparentemente começou a distribuir alguns desses WORLDs.

“Simplesmente alguém criou o token, mandou para a Ucrânia, que já vinha recebendo doações em cripto e repassando para equipes das forças armadas, e segurou parte desses tokens para ver o que o país iria fazer. Se o governo jogasse unidades no mercado, o token iria especular e a pessoa poderia ganhar dinheiro. O erro da Ucrânia foi receber e aparentemente distribuir, pois isso gerou FOMO (medo de ficar de fora) no mercado”, explicou Giuliano Scorza, dono do Dogecoin Brasil (site P2P de compra e venda de criptomoeda), ao InfoMoney.

Na manhã da quinta mesmo, alguns veículos chegaram a publicar que o airdrop havia começado. Integrantes do mercado cripto, no entanto, apontaram que havia algo errado e que a ação poderia ser fake. Alguns analistas de blockchain, segundo o CoinDesk, levantaram a hipótese que um terceiro pode ter desencadeado a transação e a carteira da Ucrânia pode não ter interagido diretamente com os tokens.

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Assim que as dúvidas sobre a seriedade do projeto e a verdadeira identidade do criador do WORLD surgiram, o próprio explorador Etherscan publicou um alerta sobre o ativo digital: “Esse token (Peaceful World) foi usado para induzir as pessoas a acreditar que foi enviado de um endereço conhecido e pode ser spam ou phishing. Por favor, trate-o com cautela”.

Para Scorza, foi por causa dessa fraude que a Ucrânia cancelou a distribuição e decidiu apostar em tokens não fungíveis, que são únicos. “É a forma que eles encontraram para evitar ativos duplicados e até um possível phishing (outro tipo de golpe para enganar usuários) em cima do site do governo. Em algum momento os golpistas poderiam se passar pelo país e começar a tentar arrecadar criptomoedas das pessoas, fazendo algo como ‘ah, troco tantos tokens do governo por um Bitcoin (BTC)'”.

Golpe da Ucrânia?

Assim que a Ucrânia cancelou o envio dos ativos, o perfil do Twitter do ministro Fedorov foi inundado de críticas. Alguns perfis disseram que a Ucrânia deu um golpe porque fez uma promessa e não cumpriu.

Em vídeos publicados no YouTube, usuários chegaram a dizer que o país deu um “rug pull”, ou “puxada de tapete” em português, um tipo de fraude em que um projeto é vendido como legitimo e arrecada criptos, mas desaparece com os recursos e deixa todo mundo no prejuízo.

Rodrigo Caldas de Carvalho Borges, advogado especialista em blockchain e sócio no Carvalho Borges Araujo Advogados, disse ao InfoMoney que não vê o comportamento do governo do país como fraudulento: “Acredito que quem doou criptomoedas para a Ucrânia não fez isso com expectativa de receber algo em troca. As pessoas doaram simplesmente para ajudar uma causa, e o token (do airdrop) iria ser criado depois como uma forma de reconhecimento. Não tem como chamar de golpista alguém que, por causa de um problema técnico, deixou de enviar uma ‘medalhinha’ que você receberia”.

Doações em cripto

A Ucrânia e a ONG ucraniana “Come Back Alive”, que dá assistência para os militares do país, já receberam US$ 56 milhões de doações com criptomoedas – entre Ethereum (ETH), BTC, Polkadot (DOT) e stablecoins – desde 24 de fevereiro, dia em que a Rússia invadiu a nação. Os dados são do provedor de análise de blockchain Elliptic, com sede em Londres.

De acordo com a plataforma, as doações incluem uma única transação no valor de US$ 1,86 milhão, “que parece ter vindo da venda de NFTs originalmente destinadas para arrecadar fundos para Julian Assange (fundador do Wikileaks)”. Um token não fungível da famosa coleção CryptoPunk, avaliado em US$ 200 mil, também foi repassado para o governo do país.

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