Preços dos carros novos caem até 2%, em média, menos que a redução do IPI

A redução de 18,5% nas alíquotas de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) aplicadas sobre veículos leves novos, anunciada pelo governo no final de fevereiro, começou a ser repassada aos preços pela maioria dos fabricantes nesta semana.

Considerando a participação do IPI no valor dos carros, o preço final para o consumidor poderia cair entre 1,4% e 4,1% com o corte do imposto, segundo cálculos da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Mas uma pesquisa feita pelo InfoMoney mostra que, na prática, a redução de preços para o consumidor tem sido menor: varia de 1% a 2%, na média. Há exceções, mas elas estão concentradas em poucos automóveis.

Todos os fabricantes consultados para esta reportagem, que juntos representam mais de 90% das vendas de veículos leves no país, informaram que estão reduzindo preços neste mês.
Volkswagen, General Motors, Hyundai, Toyota, Honda, Renault, Nissan, Ford e Kia enviaram novas tabelas com o repasse do novo IPI.

A GM aplicou descontos mínimos tanto em porcentual como em valor. A linha Chevrolet Onix, que na tabela atual começa em R$ 73.820 e vai a R$ 103.100, recebeu abatimentos que vão de R$ 10 a R$ 80, dependendo da versão.

O desconto melhora de R$ 530 a R$ 1.550 para o SUV Tracker, que agora tem preços públicos sugeridos de R$ 113.490 a R$ 147.410.

O Hyundai mais barato à venda no país, o HB20 Sense 1.0, teve abatimento de 1,25%, representando R$ 900 a menos em relação à tabela anterior – atualmente, o hatch compacto custa R$ 70.690.

Já o modelo mais caro da marca, o Creta Ultimate 2.0, recebeu desconto de 2%, equivalente a R$ 3,3 mil. Agora, o SUV sai por R$ 160.690.

No caso, da Toyota, o automóvel mais barato da marca, o Yaris Hatch XL, teve abatimento de 1,94% e agora é vendido por R$ 91.570, preço R$ 1.820 menor que o anterior.

No outro extremo da tabela, o SW4 SRX GR-S recebeu redução porcentual semelhante de 1,95%, mas seu valor ficou R$ 8.390 mais barato, agora tem preço sugerido de R$ 420.900.

O Grupo Stellantis, dono das marcas Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën e Ram, afirmou que não repassaria a diminuição do IPI, mas deixou de fazer o aumento de preços que já tinha anunciado para março.

Com isso, as reduções foram até maiores, chegando a 5%. Mas, na prática, o que aconteceu foi o cancelamento de um reajuste mensal.

Exemplo disso é o que aconteceu com os preços do Jeep Renegade Sport, o mais barato da gama. Em janeiro, ele foi relançado com novo motor, por R$ 123.990, já R$ 14 mil acima da versão anterior; ele seria reajustado para R$ 127.490 neste mês, mas a tabela foi alterada nesta semana para R$ 123.908, valor um pouco menor que o de janeiro.

Redução definitiva, repasse não obrigatório

A redução do imposto também foi estendida aos 82,5 mil veículos que estavam no estoque das concessionárias. Na terça (8), o governo publicou decreto que autoriza o refaturamento dessas unidades com IPI menor. Por isso, a maioria dos fabricantes esperou até esta semana para divulgar descontos.

Desta vez, a redução do IPI é definitiva, sem prazo pré-estabelecido para mudar e sem nenhuma contrapartida exigida dos fabricantes, que não estão obrigados a reduzir preços após o corte do imposto.

A situação atual difere da vista entre o fim de 2008 e 2014, quando sucessivos cortes temporários (e até maiores) de IPI foram aplicados pelo governo para promover o aumento de vendas, em troca do compromisso das montadoras em repassar integralmente o ganho aos consumidores.

Houve momentos em que esse repasse foi de mais de 5% no preço final, quando, por exemplo, o IPI de carros 1.0 foi zerado em 2012. No último ano da redução temporária, em 2014, o IPI sobre automóveis 1.0 foi baixado de 7% para 3%, após ter sido fixado em 2% em 2013.

Somando PIS, ICMS e PIS/Cofins, o peso dos tributos brasileiros em um veículo continua a ser um dos mais altos do mundo: varia de 35% a 42%, dependendo do modelo (antes da redução atual do IPI, ficava entre 37% a 44%).

O que esperar para os próximos meses

“Estamos vendo repasses pequenos, às vezes de R$ 20 ou R$ 30. Essa redução é muito fraca para segurar os preços, tem curta duração diante da pressão da inflação, que continua muito forte”, avalia Milad Kalume Neto, diretor da consultoria Jato Dynamics.

Kalume aponta que as tabelas têm sido reajustadas todos os meses e a redução do IPI pode frear essa dinâmica por um mês, com o cancelamento dos aumentos de março que já tinham sido comunicados pelas montadoras.

Cassio Pagliarini, diretor da Bright Consulting, tem opinião parecida: “A pressão da inflação, que já era forte, piora bastante com a guerra na Ucrânia, que já provoca altas do petróleo e de várias outras matérias-primas. A redução do IPI não tem força para segurar os preços por muito tempo”, diz.

A queda no volume de vendas dos últimos dois anos, combinada com sucessivas altas dos custos de produção e falta de componentes, fez com que as fabricantes focassem esforços em proteger seu caixa, lançando veículos mais caros e de maior rentabilidade, para clientes com maior renda. Esse movimento provocou fortes aumentos dos preços, acima da inflação.

Acompanhamento da Jato Dynamics mostra que o preço médio de venda de um automóvel subiu quase 30% de 2020 a 2021, para R$ 112 mil. Em fevereiro, esse valor já tinha avançado quase R$ 20 mil, para R$ 131,3 mil.

Levantamento semelhante da Bright Consulting mostra que o preço médio de venda de automóveis e comerciais leves teve aumento real de 17% de 2020 para 2021, já descontada a inflação de 10% medida pelo IPCA. Em janeiro, houve nova alta de 3,6%.

“Além do repasse da inflação, dos aumentos de custos e recomposição da margem de lucro, as montadoras estão lançando modelos mais caros. Essa combinação de fatores puxa os valores médios para o alto”, diz Pagliarini.

“A tendência agora é uma parada nos reajustes, nem tanto por causa da redução de IPI, mas pela queda das vendas, que deve obrigar as montadoras a conceder incentivos como descontos, bônus, financiamentos com juros mais baixos ou valorização maior do usado na troca pelo zero quilômetro”, afirma Kalume.

No primeiro bimestre de 2022, 237,2 mil automóveis e utilitários foram emplacados no país, uma queda de 26% em comparação com o mesmo período de 2021. Esse o menor volume para o primeiro bimestre em 17 anos, conforme dados de desempenho da indústria divulgados pela Anfavea.

“Desde agosto do ano passado, as montadoras estão trabalhando com tabela cheia, com reajustes acima da inflação e sem concessão de incentivos às concessionárias. Agora, devem oferecer descontos ou o resultado do ano pode ficar muito ruim. Mesmo assim, vai ser difícil escapar da alta da inflação”, diz Pagliarini.

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