Rússia decide não vender mais motores de foguetes para os EUA

Em retaliação às sanções impostas pelos EUA à Rússia, motivadas pela invasão à Ucrânia, a agência Roscosmos decidiu parar de fornecer motores de foguetes à indústria espacial norte-americana. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (3) pelo chefe da agência espacial estatal russa, Dmitry Rogozin.

Dmitry Rogozin, chefe da agência espacial russa Roscosmos, anunciou que o país vai interromper o fornecimento de motores de foguetes para empresas norte-americanas. Imagem: Vera Larina – Shutterstock

Embora a maioria dos lançamentos de foguetes nos EUA não deva ser afetada, a decisão pode mudar a forma como são enviados suprimentos para a Estação Espacial Internacional (ISS).

Rogozin revelou a nova política em uma entrevista ao canal de TV Russia 24. “Hoje tomamos a decisão de interromper as entregas de motores de foguetes produzidos pela NPO Energomash para os EUA”, disse ele. “Deixe-me lembrá-lo que essas entregas foram bastante intensas em algum lugar desde meados da década de 1990”.

Segundo a agência de notícias Reuters, Rogozin teria adotado um tom irônico: “Deixe-os voar em outra coisa, suas vassouras, eu não sei o que”.

ULA e Northrop Grumman usam motores da Rússia em seus foguetes

Dois clientes deverão ser os principais afetados: a United Launch Alliance (ULA), que é um dos principais fornecedores de lançamentos da Nasa e do Departamento de Defesa dos EUA, e a Northrop Grumman, que periodicamente lança carga da agência espacial norte-americana para a ISS.

Ambas as empresas dependem de motores de foguetes russos feitos pela NPO Energomash para impulsionar seus veículos para o espaço. No entanto, a ULA afirma que já tem todos os motores fornecidos pela Rússia de que precisa para seus foguetes. Já quanto à Northrop Grumman, a decisão pode pausar voos futuros dos veículos da empresa.

No caso da ULA, uma empresa conjunta entre a Boeing e a Lockheed Martin, a Rússia fornece o motor RD-180 para alimentar o foguete Atlas V, em atividade há quase duas décadas.

Foguete Atlas V, da ULA, sendo transportado para a plataforma de lançamento
Foguete Atlas V, da ULA, usa motores russos. Imagem: United Launch Alliance

Esses motores vêm sendo uma peça controversa já há alguns anos. Em 2014, depois que a Rússia invadiu a Crimeia, o Congresso norte-americano proibiu o uso de foguetes com motores russos para lançar satélites de segurança nacional, o que teria impedido a ULA de usar o Atlas V para missões para o Departamento de Defesa.

Essa proibição foi posteriormente suspensa, mas estimulou a ULA a começar a desenvolver um novo foguete, chamado Vulcano, que usará motores americanos, que serão fornecidos pela Blue Origin.

No entanto, como o Vulcano ainda não está pronto para voar, a ULA teve que continuar contando com o Atlas V para manter seus contratos de lançamento para o governo dos EUA. Segundo o CEO da ULA, Tory Bruno, a empresa “acelerou a entrega” dos últimos motores RD-180 de que precisa até que o foguete Vulcano comece a operar.

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Em entrevista ao site The Verge, Bruno revelou que a ULA tem cerca de duas dúzias de RD-180 na fábrica da empresa em Decatur, no estado americano do Alabama, que devem ser o suficiente para cobrir todas as missões restantes do Atlas até 2025. Isso significa que a mais recente ameaça de Rogozin não deve impactar a ULA por enquanto.

A nova política anunciada pela Roscosmos provavelmente terá maior impacto no foguete Antares, da Northrop Grumman, que usa o motor RD-181, também produzido pela NPO Energomash.

Segundo Rogozin, a Rússia estava pronta para entregar mais uma dúzia desses motores. “A partir de hoje, havia planos de entregar mais 12 motores RD-181 em 2022-2024 e também foram realizadas conversações com os EUA sobre a entrega de motores RD-181M com características operacionais melhoradas, mas acreditamos que, nesta situação, não podemos mais fornecer a eles nossos melhores motores”, disse ele.

Foguete Antares decola levando uma cápsula Cygnus na missão CRS2 NG-15
Foguete Antares, da Northrop Grumman, que usa motores da Rússia, é responsável por lançar a cápsula de carga Cygnus para abastecimento da ISS. Imagem: Nasa

Responsável pelo lançamento da nave de carga Cygnus para a ISS, o foguete Antares, da Northrop Grumman, tem pelo menos mais dois voos planejados nos próximos dois anos. No momento, há uma nave Cygnus na estação agora, que vai testar uma nova capacidade de reposicionar a ISS em abril (função normalmente executada pela nave russa Progress).

A Northrop Grumman é apenas a mais recente baixa na campanha em curso da Rússia para destruir todas as suas parcerias espaciais internacionais. Rogozin tem feito muitas ameaças, além de provocar atrasos e cancelamentos, em resposta às sanções internacionais impostas à Rússia, resultado direto da decisão do país de invadir a Ucrânia.

Rompimento de parceria na Estação Espacial Internacional não é descartado

Até agora, a Rússia suspendeu os lançamentos conjuntos com a Europa, manteve o lançamento de satélite de uma empresa comercial como refém no Cazaquistão, e fez ameaças para dissolver sua parceria com a Nasa na ISS – dissolução que preocupa a agência espacial norte-americana.

“Vamos monitorar de perto as ações de nossos parceiros americanos e, se eles continuarem a ser hostis, voltaremos à questão da existência da Estação Espacial Internacional”, disse Rogozin. “Eu não gostaria de tal cenário porque eu espero que os americanos esfriem.”

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